
Sob a forte concorrência no mercado vários profissionais como advogados, médicos e executivos, enfrentam algum grau de estresse no trabalho. No mercado de trabalho da auditoria o estresse e as cobranças se tornaram rotineiras, o que pode ser indicado como um dos fatores que levam profissionais a sair de suas empresas e procurar outras atividades. Essa perda de profissionais pode afetar o trabalho das empresas de auditora externa de diversas formas, e por conta disto, tornar-se importante a compreensão de suas causas.
Em uma escala de 1 a 10 os auditores dão nota média 7,5 para sua percepção de turnover na auditoria, sendo esta alta percepção justificada pela jornada de trabalho elevada e o desejo de ter uma qualidade de vida melhor. Ao avaliarem sua qualidade de vida, também em uma escala de 1 a 10, a nota média apresentada foi de 5,15 e ela foi estatisticamente inferior entre as mulheres e entre os profissionais nos menores níveis de hierarquia.
Observa-se ainda, como possibilidade de turnover futuro, uma baixa indicação de continuidade na carreira, até seus níveis superiores, principalmente entre as mulheres. Estas avaliações de maior dificuldade entre as mulheres reflete os achados em estudos anteriores em outros países, e reforça a importância da análise dos impactos da carreira nas mulheres.
A retenção de funcionários é uma das preocupações, muito importantes, que as empresas de serviços profissionais, como as empresas de auditoria têm. Como essas empresas empregam indivíduos altamente qualificados e confiam em seus conhecimentos e experiência para criar uma vantagem competitiva, o alto roteamento de pessoal (turnover) não é apenas oneroso em termos de custos administrativos, treinamento adicional e custos de recrutamento, mas também em termos de capital humano (perda de conhecimento e experiência) e, portanto, possa ocasionar um EFEITO NEGATIVO NA QUALIDADE DA AUDITORIA.
A partir do cenário acima, o turnover em empresas de serviços profissionais recebeu atenção considerável na literatura de recursos humanos. Uma dessas profissões que sofre altos níveis de volume de negócios é a profissão de auditoria, com a maioria dos auditores já saindo nos primeiros anos de suas carreiras.
É importante ressaltar que trabalhar em uma empresa de contabilidade, especialmente as grandes empresas de auditoria, tem sido vista como um excelente começo para a carreira de um profissional, especialmente porque proporciona uma experiência extensa no mercado, uma ampla formação e exposição. Mas como contrapartida, observa-se também críticas a qualidade de vida destes profissionais em razão de fatores como: grande volume de trabalho, pressões, muitas horas de trabalho entre outros (Boushey, Glyn, 2012; Hammes, Santos e Melim, 2016).
Martinow e Moroney (2016) apontam que embora um certo nível de turnover seja inevitável, o fracasso em manter auditores experientes representa uma ameaça aos recursos da empresa, prejudicando a reputação da empresa e da profissão e, em última instância, impedindo a realização de auditorias de alta qualidade A este respeito, o volume de negócios do auditor foi citado como uma das questões mais importantes da profissão, uma vez que as técnicas de auditoria e as normas de auditoria são tão eficazes como os profissionais que os aplicam, e os custos associados à substituição e formação de auditores podem ser significativo.
Martinow e Moroney (2016) destacam que embora a falta de comprometimento com a organização possa levar ao aumento do turnover e isso seja uma ameaça para a qualidade da auditoria, nem todos os auditores com um baixo comprometimento deixarão sua empresa ou a profissão. Aqueles com baixos níveis de comprometimento podem afetar a qualidade da auditoria, pois podem não ter a motivação necessária para aplicar diligentemente a tarefa em questão.
Steenackers e Breesch (2014) em survey efetuada com auditores e ex-auditores da Bélgica demonstra que o tempo médio de duração dos auditores em suas empresas é maior entre os nascidos nas gerações dos Baby Boomers e os da Geração X, do que os da geração Y. Nesta linha de turnover a partir de gerações, Hermanson et al (2016) indicam preocupação quanto a capacidade da profissão em sustentar a qualidade de seu capital humano, especialmente porque não há sinais de um ambiente de trabalho radicalmente melhorado na auditoria que possa atrair a Geração Y (Millennials). Fatores negativos apontam normas reguladoras do Public Company Accounting Oversight Board (PCAOB), trouxe preocupação acerca da qualidade das informações produzidas por profissionais com alta carga de trabalho e sem a vida pessoal.
Qualidade de vida, estresse e esgotamento físico e mental
De acordo com Hermanson et al (2016) a atividade profissional do Contador, principalmente na figura do auditor, tem sido percebida como uma profissão exigente, com preocupações frequentes sobre estresse. Os autores apontam ainda a preocupação com a síndrome de Burnout, que é um estado de esgotamento físico e mental cuja causa está intimamente ligada à vida profissional, e consequentemente pelo alto nível de turnover. Cabe observar ainda o ponto apresentado por Jankowski (2016), de que a estação movimentada, principalmente entre os meses de novembro a abril, é um momento em que os profissionais normalmente trabalham pelo menos 60 horas, semanas de 6 dias e é provavelmente o trecho mais desafiante do ano.
Para Haddad (2017) as organizações precisam reconhecer os impactos negativos da síndrome de Burnout na contabilidade e abordar formas de aumentar a satisfação no trabalho e a produtividade no local de trabalho.
Persellin, Schmidt e Wilkins (2014) desenvolveram um estudo com 776 auditores e ex-auditores, principalmente de Big Four (87%), avaliando a carga de trabalho e a qualidade da auditoria. Os resultados indicam que os auditores estão trabalhando em média 5 horas a mais por semana acima do limite e muitas vezes 20 horas a mais no período de pico. Assim os auditores percebem a fadiga no mercado de trabalho como tendo impacto negativo sobre a moral, e sobre o turnover, principalmente do pessoal de staff, e isso impediria uma alta qualidade nos serviços de auditoria.
No Brasil o Ministério Publico do Trabalho (MPT) tem estado de olho nas grandes corporações de auditoria e consultoria exigindo que empresas como BDO, Grand Thornton e KPMG, por exemplo assinem Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) para mitigar os possíveis danos a vida dos profissionais.
Decisões judiciais acerca das elevadas horas de trabalho em favor do trabalhador - Jornada de 14 horas de trabalho gera dano existencial, afirma TST: a 3ª Turma do Tribunal Superior do Trabalhou (TST) proveu recurso de um instalador de linhas telefônicas e condenou a empregadora ao pagamento de indenização de R$ 5 mil. A decisão considerou que sua jornada de 14 horas diárias, com 30 minutos de intervalo e finais de semana alternados, configura dano existencial, que consiste em lesão ao tempo razoável e proporcional assegurado ao trabalhador para que possa se dedicar às atividades sociais inerentes a todos – nada diverge do trabalho de auditoria. No mesmo processo, segundo o relator do recurso do trabalhador ao TST, ministro Maurício Godinho Delgado, a gestão empregatícia que submete o indivíduo a reiterada jornada extenuante, muito acima dos limites legais, com frequente supressão do repouso semanal, agride alguns princípios constitucionais e “a própria noção estruturante de Estado Democrático de Direito”, por afastar o tempo destinado à vida particular. – grifo nosso.

Qualidade da auditoria e sobrecarga de trabalho: há relação?
Yan e Xie (2016) apontam que nos Estados Unidos, o PCAOB, expressou preocupação de que a qualidade da auditoria possa ser comprometida devido à carga de trabalho ou pela pressão de tempo dos auditores. Yan e Xie (2016) indicam que os auditores na China também sofrem de um estresse de trabalho generalizado, decorrente de limites de tempo, recursos humanos, riscos de responsabilidade, etc. Os picos de estresse no trabalho na estação de pico, de janeiro a fevereiro, quando os horários de trabalho dos auditores medem mais de 10 horas por dia. Diante deste quadro é passível fazer os seguintes questionamento: “se e como o stress do trabalho generalizado afeta a tomada de decisões dos auditores e a qualidade da auditoria”. - grifo nosso.

Pouco provável que um auditor depois de ter trabalhado mais de 10 horas (repetitivamente) consiga tomar uma decisão assertiva para diminuição do risco de auditoria a um mínimo aceitável.
Hoopes et al (2017) em análise de documentos da área contábil e documentos oficiais nos Estado Unidos da América, analisaram a relação entre o salário dos auditores e a qualidade da auditoria. Foi feita a análise dos salários do pessoal de auditoria nas categorias de Associado, Sênior e Gerente nas Big Four entre 2004 e 2013. Observaram que os escritórios que pagam salários mais baixos têm uma maior percentagem de clientes que necessitam fazer republicações de suas demonstrações contábeis. Isso é observado principalmente quando os funcionários da área de auditoria ganham menos que os profissionais das áreas de TAX (impostos indiretos e impostos diretos) e de consultoria.
Essa preocupação entre satisfação dos profissionais de auditoria e a qualidade da auditoria é também observada por Khavis e Krishnan (2017) que sugerem que, embora o equilíbrio entre vida profissional e familiar não seja um determinante importante da satisfação dos funcionários, melhorar o equilíbrio entre o trabalho e a vida profissional dos auditores pode melhorar a qualidade da auditoria.
Conclusão
Ao longo do tempo as auditorias se especializaram em bons discursos para atrair profissionais, por exemplo: no inicio dos anos 1990 o discurso era: Se você trabalhar com a gente em pouco tempo você será sócio. No inicio dos anos 2000 o discurso era: Venha trabalhar com a gente você terá uma vida de viagens e uma vida profissional cheia de aventuras. No início dos anos 2010 o discurso era: Comece sua carreira na auditoria. Para muitos que ingressam na carreira de auditoria externa, ela é o meio, não o fim, usam da experiência adquirida em pouco tempo para encontrar “um emprego melhor”.
Todos os profissionais que passam pela auditoria externa garantem que é um ambiente de muito aprendizado em curto espaço de tempo, porém vem junto com o aprendizado uma grande pressão, um deadline muito curto e muitas vezes um ambiente de trabalho exaustivo e desestimulante uma vez que o nível de cobrança é muito alto em todos os níveis hierárquicos. Isso com um salário baixo acreditam sejam problemas de alto turnover em auditoria.
Com o avanço das tecnologias, mudança do perfil profissional e ingresso da geração z no mercado de trabalho o discurso precisará ser mais uma vez modificado para atrair bons profissionais para as auditorias.

Portanto, nossa conclusão que a carreira de auditoria vem necessitando de mudanças, principalmente no pouco que oferece no aspecto de qualidade de vida e talvez a ganância vem impedindo a manutenção de funcionários e aumentando cada vez mais o turnover de talentos, não sendo o suficiente a manutenção da ideia e plano de carreira ilusórios sobre o "sonho dourado de se tornar um sócio", a fim de infringir descaradamente as leis trabalhistas e encorajar os funcionários a desconsiderá-las em momentos de pressão.
Fontes:
Turnover nas Empresas de Auditoria Externa: Quais São as Causas?https://congressousp.fipecafi.org/anais/Anais2018/ArtigosDownload/1138.pdf
Jornada de 14 horas de trabalho gera dano existencial, afirma TST
Boletim de Jurisprudência Internacional - Trabalho escravo
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